Um mascote de pelúcia na Savassi
quinta-feira, 2 de maio de 2013Secador de cabelo para o calor, fone de ouvido para improvisar a dança, 30 anos, pai de três filhos, evangélico, ex-dançarino de funk, feliz – a história de um cachorro da Emive na Savassi.
Sentado em sua cadeira plástica, ele agitava um secador de cabelo para refrescar o enorme capacete de pelúcia. O homem se abrigava do sol de duas horas da tarde debaixo da sombra de uma árvore no canteiro central da avenida Getúlio Vargas. Foi ali mesmo que conversamos, eu e Léo, um dos muitos cachorrinhos da Emive que perambulam pela cidade – os nossos Mickey belo-horizontinos.
Quanto ganha
Leonardo Alves trabalha cerca de oito horas por dia durante a semana e cinco aos sábados. Atualmente, ele está sempre em algum ponto da Praça da Savassi, salvo quando acompanha eventos, mas já marcou presença na avenida do Contorno com Nossa Senhora do Carmo. Há quase um ano no emprego, Léo diz receber cerca de R$ 750 de salário, mais transporte e vale-alimentação. Com os descontos, segundo ele, o salário fica em torno de R$ 600 – bem menos do que ele recebia quando trabalhava preparando sobremesas para uma grande empresa alimentícia, onde preparou comida para os operários da reforma do Mineirão.
O que acha do trabalho
Através da tela de tecido, que é um dos poucos pontos de respiração da fantasia de cachorro, é possível ver os olhos de Léo brilhando quando ele fala da sua profissão. “Sinto muito orgulho do que faço, muito mesmo”, afirma. Léo ama o contato com as crianças, gosta da interação com o público e não se arrepende de ganhar menos que na época de preparar sobremesas. “O mais difícil é arrancar um sorriso de homem, você sabe, a gente é machista, parece até que é errado sorrir pra um cara fantasiado de cachorro”, comenta. O trabalho é cansativo, entretanto. Léo, que retira a fantasia no bairro da Savassi apenas durante o horário de almoço, precisa se valer do secador de cabelos para se resfriar durante os dias quentes e para aquecer quando o clima está frio. Ele conta que já chegou a ficar desidratado uma vez quando se “empolgou” e não cumpriu as pausas durante o expediente.
Os sonhos
Léo mora no Morro das Pedras (como ele chama), Vila Leonina (como nomeia a Prefeitura), às margens da avenida Raja Gabaglia na Região Centro-Sul da cidade de Belo Horizonte. Evangélico, 30 anos, ele já fez parte de um grupo de funk, mas largou a dança devido à religião. Seus três filhos, Izabelle, Felipe e Ramon são cada um fruto de um relacionamento diferente e nenhum vive com o pai, um carma que repete a história de Léo com seu próprio pai, algo que ele gostaria de ter evitado e que Léo sonha em poder mudar. “Fui criado pela minha bisavô, que foi como uma mãe para mim, minha mãe foi como um pai e meu pai eu não conheci. Infelizmente acabei repetindo o que aconteceu comigo e meu pai, e meus filhos não moram comigo, moram perto, mas não vejo eles todos os dias. Meu maior sonho é ter eles comigo, principalmente a Izabelle. Ela é, como se diz, meu xodó”, desabafa.
Todos os cachorros de BH
Segundo Léo, hoje existem cerca de 10 cachorros fantasiados na cidade, todos homens. Há outros cachorros em treinamento e há mulheres disputando vagas para o posto. Quando entrou na profissão, Léo conta que havia cerca de 20 cachorros em BH. Ele se lembra em especial de dois dos mais antigos, Matusalém, que está há seis anos no cargo e já foi morador de rua, e Gleison, há nove, que nasceu com má formações no rosto que são escondidas pela máscara. “Ele se transforma quando veste a roupa. Acho que ele gosta pelo contato com as pessoas “, comenta. Léo ainda acrescenta que hoje as pessoas respeitam quem trabalha fantasiado de cachorro, mas no passado já foi motivo de chacota e até de agressão. “Acho que foi com o Gleison, uns meninos já bateram nele quando trabalhava no Parque Municipal. A fantasia de cachorro ficou toda amassada”, conta.
Fonte: NaSavassi
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