Savassi: Pode pegar, mas apenas um
quarta-feira, 29 de agosto de 2012A Antônio de Albuquerque está cheia, embora ainda seja tarde. Entre aqueles que só relaxam por alguns minutos em alguns dos vários cafés e os que buscam em alguma sombra, um refresco para o sol a pino, está o motoboy William Costa da Silva, 22 anos.
Parado na frente do Takos Cocina Mexicana, ele olha desconfiado para a pilha de livros no banco da praça e o seguinte aviso: “pode pegar, mas apenas um”. William passa na frente, dá uma olhadela e finalmente cria coragem para se aproximar. Folheia, lê a sinopse e depois pega seu exemplar.
A cena incomum tem se repetido mais e mais vezes graças ao esforço do escritor Durval Augusto Jr. em divulgar seus livros. Natural da cidade de Belo Horizonte, Durval trabalhou como Analista Judiciário do TRE até a sua aposentadoria, no primeiro semestre deste ano. Foi quando resolveu se dedicar inteiramente ao ofício da escrita, algo que vinha praticando desde 1999, com a publicação do seu primeiro romance: “Fernando Capeta Urubu”.
“Se a pessoa tem o sonho de ser escritor, ela precisa garantir a vida economicamente e tentar correr atrás por fora,” aconselha. “Quando resolvi ser escritor, a primeira coisa que fiz foi procurar as editoras porque tinha a ilusão de que só apresentaria o trabalho e seria publicado. Cheguei a procurar a Lei de Incentivo, mas o problema maior em se publicar não é a produção do livro em si, mas a divulgação e isso a lei não cobre”.
Diante das dificuldades de divulgação e vendagem das suas obras, Durval resolveu fazer uma experiência. Há um mês, quando a primeira edição de “Fernando Capeta Urubu” já se esgotava, juntou os últimos livros que tinha e foi para a Praça da Liberdade. Distribuiu um livro em cada banco e foi embora. Depois da experiência, Durval começou a ver nesse tipo de ação, uma poderosa ferramenta para divulgar sua obra. “Pensei, ‘aqui em casa ninguém vai querer nem saber dos livros, é melhor divulgar’,” conta. “Resolvi fazer a mesma coisa também com os livros novos, ‘Almas Tontas’ e ‘Sem Paredes’. Coloquei os livros na Antônio de Albuquerque junto com a placa que podia pegar só um. O mais engraçado era ver as pessoas tentando se decidir por qual levar”.
Na sua terceira intervenção, feita na última sexta (24), as pessoas demoraram a chegar, mas quando chegam os livros logo saem. “Uns acham que é pegadinha, outros não pegam, ficam sem coragem e acham que vão ter que pagar depois. O mineiro é desconfiado, às vezes esse jeito acanhado reflete muito dessa nossa mineirisse,” observa Durval.
William, que mencionamos no início da reportagem, aprovou a ideia. “Trabalho por aqui, a rotina é muito corrida. Acho produtivo ler, sempre que posso trago meu jornal. Gostei da ideia de doar o livro”.
“O mercado está mais amplo, com a concorrência da internet e dos e-books. Existe uma tendência a se abrir mais para modismos como vampiros. A literatura, por assim dizer, mas autêntica, mais fiel, tem menos espaço. Um livro não-comercial pode, ocasionalmente, agradar o público, mas esse não é o propósito a menos que você já seja famoso,” analisa. Porém, mesmo diante das dificuldades em se publicar, Durval não pretende desistir da profissão. ”Não dá para não escrever porque às vezes, a literatura quer sair da gente”.
Fonte: Na Savassi
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