Artista de rua encanta público na Savassi
segunda-feira, 27 de agosto de 2012Na Savassi que continua mudando, salas antigas se transformam em sofisticados escritórios cujo preço do aluguel ultrapassa o terceiro dígito. O fluxo de pessoas correndo de um lado pro outro, entre um lanche na praça e a rotina do labirinto de pedra, quase sempre, não nos permite olhar pra baixo. Hoje eu olhei.
Na correria entre uma pauta e outra, passava pela rua Tomé de Souza com a rua Pernambuco. Passei direto, mas uma figura me chamou a atenção. Com as mãos coloridas de tinta, um homem vasculhava uma caçamba laranja – dessas tão comuns nessa região em constante reforma – e deslizava o dedo por um pedaço de madeira. Marcos Antônio Santos, 35 anos, ou “o pintor”, como prefere ser chamado, me observa de volta com genuína curiosidade quando me apresento. Pedi que conversasse comigo por uns minutos.
“Vou falar como falo para meus amigos, puxe uma cadeira e sente-se no chão”, brinca. “Mas isso não vai fazer os fiscais virem tomar meu material de novo, né?”, completa preocupado. Desfeita a desconfiança, Marcos puxa um pedaço de arame da caçamba e, sem nenhuma ferramenta além das próprias mão, entorta-o para formar meu nome.
Conhecido principalmente no quarteirão fechado da Antônio de Albuquerque, o “pintor” diz que mora na rua “desde que se entende por gente”. Descobriu o artesanato há 25 anos, mas a pintura há apenas cinco. “Passava pela rua e vi um homem pintando. Pedi a ele pra me ensinar, ele queria cobrar R$ 400. Apenas olhei e pedi ao meu Senhor que me desse essa graça, depois de três dias já tava pintando também”, conta. “Saí de casa muito novo por coisas que eu não gosto de ficar lembrando. A pintura me ajuda a esquecer. Uma vez encontrei na rua uma cantora sem os braços e sem as pernas que me disse uma coisa que nunca vou esquecer. Ela me disse que se a gente não se perdoar e não gostar de si próprio, ninguém mais vai fazer isso. Eu errei, mas me perdoei”.
Entre uma fala e outra, Marcos mergulha o dedo na tinta e depois a espalha na tela. Sua destreza aos poucos vai chamando a atenção de quem passa e se permite ‘perder’ um minuto do seu precioso tempo para admirar e conversar com o artista. A operadora de caixa Aline Oliveira, 22 anos, se impressiona. Pede um quadro, vendido a R$ 10. Em 15 minutos, recebe das mãos do pintor uma representação do Salmo 91.
“Não sou evangélico. Quando recito essas coisas de Bíblia, um monte de gente vem me perguntar se já fui pastor, mas não. Quando a gente não tem anda, só sobra Deus no coração,” diz. “Na rua você tem dois caminhos: ou você aprende ou começa a roubar. Como não tenho coração nem capacidade de roubar, tive que aprender”, ensina.
Aos poucos, o público, que antes era composto apenas por mim e Aline, aumenta. Chegam mais e mais interessados a ponto de chamarem a atenção dos fiscais da prefeitura que circulavam pelo local. Mesmo sob pedidos insistentes para que ele pintasse mais telas, ele olha, desconfiado. “Semana passada levaram tudo na Feira Hippie alegando ocupação indevida de espaço. Tô trabalhando na improvisação, não posso ficar muito tempo aqui porque senão me levam tudo de novo. Fico mais perto do Três Corações porque o pessoal de lá me ajuda a lidar com fiscal”.
Para Aline, a ação da prefeitura é desumana. “O que me chamou a atenção na verdade foi a humildade dele. A gente reclama tanto de bagunça que mendigo as vezes faz na praça e na rua, mas tem que saber diferenciar. Se todo mundo que tem condições pudesse ajudar, imagina como seria o mundo,” diz, impressionada e emocionada com o trabalho.
Peço uma tela e ele diz que fará uma especial, “a passagem de Gênese, quando Deus separou o dia da noite”. Não assina seu nome, mas sim ‘Jesus é a Vida’.
Quando questiono Marcos sobre sua necessidade mais urgente hoje em dia, ele me surpreende com a resposta. “Sou feliz com a vida que eu levo. Tenho Deus, tenho as pessoas a minha volta que me ajudam na medida do possível. Meu sonho é dar aula de arte em uma escola de crianças carentes, mas não posso ir vestido assim ‘esmulambado’ (sic) não. Até lá, Deus disse para procurar sabedoria e o resto será provido. Vou vivendo que uma hora muda”. Que mude então. Pra melhor.
Fonte: Na Savassi


