{"id":135,"date":"2012-08-27T07:00:48","date_gmt":"2012-08-27T09:00:48","guid":{"rendered":"http:\/\/www.encontrasavassi.com.br\/noticias\/?p=135"},"modified":"2013-08-19T10:41:18","modified_gmt":"2013-08-19T12:41:18","slug":"artista-de-rua-encanta-publico-na-savassi","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.encontrasavassi.com.br\/noticias\/artista-de-rua-encanta-publico-na-savassi\/","title":{"rendered":"Artista de rua encanta p\u00fablico na Savassi"},"content":{"rendered":"<p>Na Savassi que continua mudando, salas antigas se transformam em sofisticados escrit\u00f3rios cujo pre\u00e7o do aluguel ultrapassa o terceiro d\u00edgito. O fluxo de pessoas correndo de um lado pro outro, entre um lanche na pra\u00e7a e a rotina do labirinto de pedra, quase sempre, n\u00e3o nos permite olhar pra baixo. Hoje eu olhei.<\/p>\n<p>Na correria entre uma pauta e outra, passava pela rua Tom\u00e9 de Souza com a rua Pernambuco. Passei direto, mas uma figura me chamou a aten\u00e7\u00e3o. Com as m\u00e3os coloridas de tinta, um homem vasculhava uma ca\u00e7amba laranja \u2013 dessas t\u00e3o comuns nessa regi\u00e3o em constante reforma \u2013 e deslizava o dedo por um peda\u00e7o de madeira. Marcos Ant\u00f4nio Santos, 35 anos, ou \u201co pintor\u201d, como prefere ser chamado, me observa de volta com genu\u00edna curiosidade quando me apresento. Pedi que conversasse comigo por uns minutos.<\/p>\n<p>\u201cVou falar como falo para meus amigos, puxe uma cadeira e sente-se no ch\u00e3o\u201d, brinca. \u201cMas isso n\u00e3o vai fazer os fiscais virem tomar meu material de novo, n\u00e9?\u201d, completa preocupado. Desfeita a desconfian\u00e7a, Marcos puxa um peda\u00e7o de arame da ca\u00e7amba e, sem nenhuma ferramenta al\u00e9m das pr\u00f3prias m\u00e3o, entorta-o para formar meu nome.<\/p>\n<p>Conhecido principalmente no quarteir\u00e3o fechado da Ant\u00f4nio de Albuquerque, o \u201cpintor\u201d diz que mora na rua \u201cdesde que se entende por gente\u201d. Descobriu o artesanato h\u00e1 25 anos, mas a pintura h\u00e1 apenas cinco. \u201cPassava pela rua e vi um homem pintando. Pedi a ele pra me ensinar, ele queria cobrar R$ 400. Apenas olhei e pedi ao meu Senhor que me desse essa gra\u00e7a, depois de tr\u00eas dias j\u00e1 tava pintando tamb\u00e9m\u201d, conta. \u201cSa\u00ed de casa muito novo por coisas que eu n\u00e3o gosto de ficar lembrando. A pintura me ajuda a esquecer. Uma vez encontrei na rua uma cantora sem os bra\u00e7os e sem as pernas que me disse uma coisa que nunca vou esquecer. Ela me disse que se a gente n\u00e3o se perdoar e n\u00e3o gostar de si pr\u00f3prio, ningu\u00e9m mais vai fazer isso. Eu errei, mas me perdoei\u201d.<\/p>\n<p>Entre uma fala e outra, Marcos mergulha o dedo na tinta e depois a espalha na tela. Sua destreza aos poucos vai chamando a aten\u00e7\u00e3o de quem passa e se permite \u2018perder\u2019 um minuto do seu precioso tempo para admirar e conversar com o artista. A operadora de caixa Aline Oliveira, 22 anos, se impressiona. Pede um quadro, vendido a R$ 10. Em 15 minutos, recebe das m\u00e3os do pintor uma representa\u00e7\u00e3o do Salmo 91.<\/p>\n<p>\u201cN\u00e3o sou evang\u00e9lico. Quando recito essas coisas de B\u00edblia, um monte de gente vem me perguntar se j\u00e1 fui pastor, mas n\u00e3o. Quando a gente n\u00e3o tem anda, s\u00f3 sobra Deus no cora\u00e7\u00e3o,\u201d diz. \u201cNa rua voc\u00ea tem dois caminhos: ou voc\u00ea aprende ou come\u00e7a a roubar. Como n\u00e3o tenho cora\u00e7\u00e3o nem capacidade de roubar, tive que aprender\u201d, ensina.<\/p>\n<p>Aos poucos, o p\u00fablico, que antes era composto apenas por mim e Aline, aumenta. Chegam mais e mais interessados a ponto de chamarem a aten\u00e7\u00e3o dos fiscais da prefeitura que circulavam pelo local. Mesmo sob pedidos insistentes para que ele pintasse mais telas, ele olha, desconfiado. \u201cSemana passada levaram tudo na Feira Hippie alegando ocupa\u00e7\u00e3o indevida de espa\u00e7o. T\u00f4 trabalhando na improvisa\u00e7\u00e3o, n\u00e3o posso ficar muito tempo aqui porque sen\u00e3o me levam tudo de novo. Fico mais perto do Tr\u00eas Cora\u00e7\u00f5es porque o pessoal de l\u00e1 me ajuda a lidar com fiscal\u201d.<\/p>\n<p>Para Aline, a a\u00e7\u00e3o da prefeitura \u00e9 desumana. \u201cO que me chamou a aten\u00e7\u00e3o na verdade foi a humildade dele. A gente reclama tanto de bagun\u00e7a que mendigo as vezes faz na pra\u00e7a e na rua, mas tem que saber diferenciar. Se todo mundo que tem condi\u00e7\u00f5es pudesse ajudar, imagina como seria o mundo,\u201d diz, impressionada e emocionada com o trabalho.<\/p>\n<p>Pe\u00e7o uma tela e ele diz que far\u00e1 uma especial, \u201ca passagem de G\u00eanese, quando Deus separou o dia da noite\u201d. N\u00e3o assina seu nome, mas sim \u2018Jesus \u00e9 a Vida\u2019.<\/p>\n<p>Quando questiono Marcos sobre sua necessidade mais urgente hoje em dia, ele me surpreende com a resposta. \u201cSou feliz com a vida que eu levo. Tenho Deus, tenho as pessoas a minha volta que me ajudam na medida do poss\u00edvel. Meu sonho \u00e9 dar aula de arte em uma escola de crian\u00e7as carentes, mas n\u00e3o posso ir vestido assim \u2018esmulambado\u2019 (sic) n\u00e3o. At\u00e9 l\u00e1, Deus disse para procurar sabedoria e o resto ser\u00e1 provido. Vou vivendo que uma hora muda\u201d. Que mude ent\u00e3o. Pra melhor.<\/p>\n<p><em>Fonte: Na Savassi<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Na Savassi que continua mudando, salas antigas se transformam em sofisticados escrit\u00f3rios cujo pre\u00e7o do aluguel ultrapassa o terceiro d\u00edgito. O fluxo de pessoas correndo de um lado pro outro, entre um lanche na pra\u00e7a e a rotina do labirinto de pedra, quase sempre, n\u00e3o nos permite olhar pra baixo. Hoje eu olhei. 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